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Os Quíchuas - Peru

Tipo de projeto

Imersão documental / pesquisa micro e macrocósmica

Data

Agosto 2014

Local

Peru

Minha passagem pelo Peru foi um divisor de águas — na minha carreira, na minha vida e no meu modo de olhar o mundo. Ali descobri uma civilização que pensa e constrói com uma inteligência ao mesmo tempo analógica, tecnológica, intuitiva e cósmica. O povo Quíchua, guardião vivo dessa herança, ensinou-me a perceber a ligação precisa entre o infinitamente pequeno e o grandiosamente imenso: o detalhe microscópico de uma rocha talhada e o desenho cósmico de uma cordilheira; a arquitetura do corpo e a arquitetura do universo.

A caminhada de cinco dias pelas trilhas incas — passando por Mollepata, contornando os montes gelados de Umantay e Salkantay, descendo por vales vertiginosos até Santa Teresa e pequenas vilas encravadas no meio da montanha, seguindo rumo a Águas Calientes, Matchu Picchu, depois Ollantaytambo e Cusco — foi uma travessia interior. Cada passo era um exercício de inversão do olhar: do dentro para o fora e do fora para o dentro. Ali, o território não é cenário; é ensinamento.

Os povos quíchua possuem uma percepção do tempo e da Terra que ecoa há séculos: uma relação com a montanha como espírito vivo; com a água como memória; com o silêncio como ferramenta de respeito; com o gesto mínimo como parte de uma engrenagem maior que inclui astros, plantas e pedras e a rarefação do oxigênio nas alturas. Essa convivência me transformou profundamente. Foram encontros que não se pareciam com entrevistas nem com pesquisa: eram presenças, partilhas, escutas demoradas junto a famílias, anciãos, crianças e caminhantes.

Passei também por Arequipa, o deserto de Nazca e seus enigmas gravados na terra; as dunas vivas de Huacachina; e por fim Lima, que se abriu como uma metrópole entre ruínas pré-colombianas, gastronomia e camadas de história. Cada lugar expandiu um pouco mais essa lente andina que carrego até hoje — uma lente que me permite ver o mundo como conectividade, como rede entre micro e macro, como fazia Patricio Guzmán, cineasta chileno que também entendia o cinema como encontro entre corpo, política, montanha e cosmos.

Essa jornada reverbera até agora no meu trabalho: moldou minha estética, minha ética e minha sensibilidade documental. Os povos quíchua me ensinaram a levar a visão para longe — para o cósmico — e ao mesmo tempo a cultivar o olhar mais íntimo, o gesto mais simples. Aprendi que nada existe sozinho: cada pedra, cada fôlego, cada ser carrega uma linha que se estende até o todo.

Desde então, tudo o que filmo e escrevo passa por essa lente andina — uma lente que nasceu nos Andes e segue orientando meu modo de caminhar pelo mundo.

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