SOBRE ASSISTIR A UM FILME INVISÍVEL: entre corajudas, prazeradas e curandeiras do profundo.

Eram cinco da manhã de lua cheia e eu, no ônibus, reinventava as cenas do encontro com algumas mulheres pelo interior da Bahia. Sentar-se na janela do ônibus é o primeiro exercício de cinema para qualquer pessoa disposta a projetar naquele movimento a sua ficção real e diária. Foram tantas horas e tantas cenas pela janela que a vertigem desta liberdade trouxe-me um cansaço e, ao mesmo tempo, um deslumbre.

Valdelice, 83 anos, mateira, lenheira, rachadora, benzedeira. Lençóis-BA

Desde quando comecei a encontrar-me com tantas mulheres no coração do Brasil, passei a observar com mais interesse as transformações instintivas dos que buscam as narrativas espontâneas, os saberes originários e tradicionais nos cantões interiores de nós e do mundo.

Pessoas, lugares e momentos que nos deixam como um vulcão. Nossa identidade montada se explode em material inconsciente. O elã do propósito da vida se esfarela em drama. Tanto assim que, de alguma forma, é preciso aceitar que nos autorizamos a enxergar toda a nossa fachada verdadeira e o nosso desmedido avesso, sentados no sofá das casas ou nos abraços.

A intensidade do pacote humano das dores e dos prazeres diários limitam a nossa virtude de ser o primeiro espectador da vida, como se precisássemos eliminar mil leões na selva antes de realizar o básico: apenas assistir ao mundo, filmes da prática ordinária.

Isto me lembra a euforia presente em cada pré-produção, nos momentos anteriores ao mergulho num filme que, ironicamente, não sabemos ainda qual será: reunir a equipe, sentir os laços, balizar os medos, os sentidos e, principalmente, liberar-nos dos propósitos e dos requisitos, pois não há nada mais limitante do que alimentar a gama de desejos de toda a equipe, como se fôssemos donos e diretores daquela realidade. Se isso acontece, nada acontece.

É um exercício constante em duplicata. Vida e trabalho em espelhamento, a nos colocarem de frente para o nosso delírio e nosso controle cotidiano, “especial”, impecável, cinicamente cheio de falhas, fatos e atos.

Portanto, uma atenção sensível e uma vigilância constante sempre se faz necessária nas jornadas pelo cinema ao nosso modo, nesse caso, o correspondente da vida real e de sua arte espontânea, onde um expande o outro – seja por respeito, seja por afeto à diversidade e ao mistério humano.

Algo que nos confronta com os tiques e manias de “não esperar nada desejando muito” ou “não fazer nada provocando tudo” que pontua nossa aposta em outro canal possível na simplicidade do encontro com as pessoas, de poder ser o máximo que podemos ser, na sinceridade de nossas contradições e desassossegos, para que uma travessia seja feita enquanto nos colocamos à prova no ato.

Deslocamo-nos do cinema do acontecimento para um cinema do invisível, do tempo expandido, misterioso, da verdade insólita – saímos da morbidez dos excessos para algo de um desacontecimento fundamental, como apresenta tão bem Eliane Brum em sua leitura do mundo vivo em potência molecular.

Uma arte invisível e sensível, um campo de forças em jogo que prescreve, entre nós, as ações e os alumbramentos em cada visita.

APRENDENDO COM ELAS

Quando entramos em imersão, nos dispomos da qualidade das ausências, do menos, do silenciamento da técnica para a emergência espontânea das fissuras, das apostas, dos vazios e das quimeras por cima das quais flutua nosso barco inteiro, a arca das humanidades, a causa dos MITOS BRASILEIROS.
Assim, transformamo-nos em surpresas uns para os outros. É uma dose cavalar de confiança e fé no encontro, que retroalimenta nossa abertura e vulnerabilidade constante, totemizada na câmera. Nada diferente da vida.

Mãe Marieta, 109 anos, parteira preta-velha, 3 mil partos, patrimônio material e imaterial do mundo. “Quem sabe viver, sabe morrer” – Iraquara-BA.

Não é preciso fazer tanto quando há algo que nos faz.

Nesse tema das ausências que triunfam um modo potente de existir, essas mulheres que vamos encontrando por sorte e destino, nos revelam muito mais que isso. Apresenta-nos generosamente um espaço de desconformidade, de desencaixe único da própria necessidade do eu de ser Eu, como se não precisássemos ser fazedores em tempo integral, nem o suprassumo do intento pessoal. Há sempre algo que faz por nós, chamado de Deusa, Deus ou de destino por tantas dessas mulheres, uma terceira margem no eixo destes encontros, um outro mundo que faz o seu mundo maior e mais certeiro, outramentos constantes e um tanto transcendente.

Estar com elas e realizar essa jornada artística de encontros recorda-me de ser profundamente sincero para descobrir o meu tamanho. Talvez algumas de nossas convicções não caibam na infinidade de suas cozinhas.

Em algum ponto deste caminho damos conta do tanto que damos conta, se conseguiremos seguir ou se já fomos mais além do que imaginamos.

Colocamos uma lupa no olhar, vemos a quantidade de camadas que povoam nossa pele e o tanto que nos mobiliza ser olhado por dentro por uma feiticeira, uma griô, uma mulher de fé e força.

O alumbramento maior está sempre na sensação de câmera-lenta subjacente a esses encontros, que faz brotar um certo tom de desacostume sagrado que nunca me deixa saber, de fato, o que fazer ou o que falar. Como se não fosse suficiente dizer apenas que eu estava ali para ouvi-las, ou que viemos de longe para encontrá-las.

Junto às curandeiras, é preciso silenciar o mundo inteiro para ouvir a música dos ramos do livramento, o cheiro do perfume de alfazema na sola de nossas mãos e o eco da voz que vibra lá no canto mais profundo da gente. Tenho memórias em câmera lenta e sons em reverb, certo de que é possível acessá-las a qualquer momento ou de qualquer lugar. Este eco fica aqui, fica aí e lá.

E assim seguimos encontrando-nos com seres de força como essas mulheres que venho conhecendo durante estes 5 anos de percurso pelo profundo do Brasil e de mim mesmo. Abaixo você pode experimentar algumas imagens:

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