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Mestras da Chapada Diamantina / Jarê - Bastidores de Resto de Mundo
Tipo de projeto
Produção e pesquisa
Data
janeiro a março de 2020
Local
Chapada Diamantina
Meu mergulho na Chapada Diamantina durante as gravações da 1ª temporada de Resto de Mundo foi uma das experiências mais transformadoras da minha trajetória. Naquele momento, eu ainda não imaginava que a série — nascida de uma proposta modesta, quase experimental — cresceria tanto, alcançaria tanta gente e se tornaria um dos pilares do meu trabalho. O que realmente importa é aquilo que encontrei ali: presenças ancestrais vivas, mestras que carregavam no corpo e na voz um saber que não se aprende em livros.
A Chapada nos recebeu com a força de suas montanhas, seus vales e suas águas sagradas, mas foram as mulheres — parteiras, benzedeiras, raizeiras, guardiãs do sensível — que abriram passagem para uma forma de aprendizado que só existe na convivência. Entre elas, a inesquecível Mãe Marieta, que viveu até os 113 anos (in memoriam) e nos ofereceu não apenas histórias, mas uma forma de olhar o mundo. Em sua presença, o tempo parecia dobrar: ela falava do passado como quem narra o futuro, e do futuro como quem lê o presente com a tranquilidade de quem já viu tudo o que precisava ver.
Naquela época — 2018, 2019 — muitas dessas mulheres falavam sobre “coisas difíceis que estavam por vir”, sobre um “tempo de recolhimento do mundo”, sobre “doença que viaja pelo ar” e sobre a necessidade de fortalecer a comunidade antes do medo. Foi impossível não lembrar dessas conversas quando, em 2020, a pandemia chegou. Era como se, nas entrelinhas das falas delas, estivesse a cosmovisão do futuro, uma percepção fina, ancestral e sensível que atravessa aquilo que chamamos de tempo linear.
Durante a gravação da série, percebi algo que me acompanha até hoje: ali, o cinema visível era apenas uma camada. O que realmente acontecia era outro tipo de filme — um cinema invisível, tecido no encontro, no gesto, no silêncio, na escuta. Foi na Chapada que entendi que o documentário não é feito só com câmeras; ele é feito com presença. As mestras me ensinaram a abrir os olhos pelo sensível, a ver o mundo com o corpo inteiro, a reconhecer o invisível como parte fundamental da narrativa.
A convivência com essas mulheres expandiu meu entendimento de futuro, de cuidado e de mundo. Marcaram minha carreira e me aproximaram generosamente das mulheres que intuem o destino do planeta — aquelas que, mesmo com poucos recursos, carregam tecnologias do corpo, do espírito, da terra e da cura que têm sustentado comunidades por séculos.
Resto de Mundo nasceu ali como uma travessia, mas foi na Chapada que ela encontrou seu coração. E é por isso que essa experiência permanece como uma das pedras fundamentais do meu caminho — uma bússola ancestral que sigo consultando, filme após filme.




































































































