top of page

Create Your First Project

Start adding your projects to your portfolio. Click on "Manage Projects" to get started

Maria Bonita / Cangaço

Tipo de projeto

Pesquisa roteiro documental

Data

2018 - atual

Local

Piranhas (AL), Canindé de São Francisco , Entre Montes, e vilas proximas.

Desde 2018, venho me dedicando a um mergulho continuado na história do cangaço — não apenas como fato histórico, mas como campo imagético, poético e político que continua respirando na boca das pessoas, nos interiores do Brasil. Minha jornada atravessou sertões da Bahia, Pernambuco, Paraíba e Ceará, passando pelo Cariri, pelo alto e baixo Pajeú, e pelas margens do alto e baixo São Francisco — territórios onde o cangaço não é passado: é conversa, é lembrança viva, é símbolo reorganizado a cada geração.

O que mais me impressiona é a multiplicidade de Maria Bonita, cuja imagem muda de acordo com a história de vida de quem a narra. Para alguns, ela é a mulher que já não queria mais viver no cangaço; para outros, era a mãe que desejava criar sua filha longe da guerra; há quem diga que acobertava Lampião em suas relações homoafetivas; há versões de que ela própria teria denunciado o bando, cansada de fugir. Essas contradições não enfraquecem sua figura — ao contrário, a amplificam, revelando a potência da imaginação sertaneja e a complexidade de uma mulher que o país nunca conseguiu enquadrar por completo.

Minha pesquisa se intensificou especialmente ao aproximar-me da narrativa do fim do cangaço, na Grota do Angico, em Poço Redondo, Sergipe — ponto crucial da história, onde Lampião, Maria Bonita e outros nove cangaceiros foram emboscados pela volante, ao amanhecer de 28 de julho de 1938. A Grota é um lugar seco, apertado, cercado por pedras rachadas e caatinga fechada — um abrigo que se acreditava seguro, mas que acabou se tornando o cenário da chacina mais famosa do sertão.

Estar ali é sentir o estranhamento de uma geografia que guarda a memória no silêncio das pedras. O cenário mantém rastros visíveis: o estreito corredor por onde o grupo foi surpreendido; o paredão rochoso que abafou os tiros; a vegetação que ainda cresce rente ao chão onde os corpos foram encontrados. Na Grota do Angico, a história se contorce entre mito e ferida: é um lugar que convoca respeito, escuta e cuidado — onde cada árvore parece carregar um testemunho.

Nas minhas viagens pelo sertão, conversando com moradores, pesquisadores populares, vaqueiros, beatos, senhoras que ainda contam como seus pais ouviram os tiros ao longe, percebo que o cangaço continua vivo: ele existe nos relatos, nas versões conflitantes, nos medos antigos, nos orgulhos discretos, nas metáforas do cotidiano. A história não se encerra nos livros, mas se expande nas bocas, reinventando Maria, Lampião e todo o bando como espectros identitários.

Essa pesquisa segue em andamento — um processo de escuta longa, que combina antropologia, psicologia e narrativa documental. Cada viagem acrescenta uma nova dobra; cada história abre uma contradição que enriquece o tecido narrativo. No fim, é o próprio sertão que se revela: múltiplo, indomável, feito de versões que não querem (e não precisam) concordar entre si.

E é justamente nesse desacordo fértil que o cangaço continua vivo — e onde meu trabalho encontra eco, exigindo cuidado, tempo e escuta expandida.

bottom of page