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Kalungas
Localização
Vão das Almas - Chapada dos Veadeiros - GO
Data
agosto 2018
Tipo de projeto
Pesquisa / fotografia documental / escuta
Visitar o Território Kalunga foi como atravessar um portal no tempo. Ali, entre serras, vales fundos e rios de água transparente, vive a maior comunidade quilombola territorial do Brasil, com centenas de milhares de hectares de Cerrado preservado e dezenas de comunidades espalhadas pelos municípios de Cavalcante, Teresina de Goiás e Monte Alegre de Goiás. Formado por pessoas escravizadas que fugiram das minas de ouro no século XVIII, o povo Kalunga passou quase duzentos anos em relativo isolamento, criando modos de vida, proteção e autonomia que fizeram desse território um dos arquivos vivos mais potentes de ancestralidade do país.
Estar lá não foi turismo: foi iniciação. A imersão no Kalunga me colocou diante de saberes dos mais antigos do planeta — práticas de plantio e colheita ajustadas ao Cerrado, conhecimentos de cura, rezas, festas, formas de organização comunitária, uma relação com a terra que é, ao mesmo tempo, política, espiritual e cotidiana. Caminhar pelas estradas de chão, atravessar rios, escutar histórias à sombra dos quintais foi perceber que ali o território não é cenário: é parente. O Cerrado Kalunga guarda mais de 80% de vegetação nativa preservada, uma das maiores reservas contínuas desse bioma no Brasil, justamente porque o modo de vida quilombola se baseia em cuidado e reciprocidade com a terra.
Entre casas de adobe, terreiros, roças e festas, a sensação constante era de estar num arquivo vivo de Brasil profundo – um Brasil que sobreviveu à escravidão, ao apagamento e à grilagem pela força da coletividade. O encontro com o povo Kalunga mexeu comigo de um jeito raro: foi uma das visitas a territórios ancestrais que mais deslocou minha percepção de tempo, de corpo e de futuro. No Kalunga, o passado não é museu; é matéria ativa, reorganizando o presente e abrindo outras imagens possíveis de amanhã.
Para o meu trabalho, essa experiência acendeu um eixo fundamental: a necessidade de filmar e escrever não apenas sobre territórios tradicionais, mas com eles — reconhecendo o Kalunga como um dos centros de pensamento do Brasil contemporâneo, onde resistência, memória e invenção seguem sendo praticadas, diariamente, em cada gesto de cuidado com a terra e com a comunidade.

































