…por onde passa um rio.

 

Januária-MG, 29 de agosto de 2016
Projeto Cinema no Rio
Rio São Francisco

Às vezes o menino perguntava para si mesmo se ele estaria levando a sério essa constante generosidade da margem do rio em abrir a sua realidade para o fluxo inédito das coisas. O primeiro sinal vermelho no céu, às cinco da tarde, colocou o mundo em uma fenda e levou o garoto até a mais distante dobra do longe. Na fricção entre os dois mundos, ele podia ver as vísceras quentes do céu, nuvens absurdamente afiadas a rasgar a pele do mundo inteiro. O menino imaginava, enquanto todas as coisas no rio, em câmera lenta, se inventavam. A Grande Hora amolecia seu rosto e seu olho, pálpebras em ondas, visão molhada. O que mais havia de ser transformado naquele momento para salvar aquele menino do deságue inquieto da sua solidão? Um barqueiro que só tinha silhueta, no meio do rio, falava em sombras que ali ninguém se afoga. Sabe-se lá porque diabos tamanha sincronia entre o rio e o menino, naquele fundo quase oceânico dos dois, garantia suas margens. Ali, no encontro de ambos, ninguém se perde ou morre, ninguém seca ou some: torna-se outro.

 

1 Comment

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keydiasreply
4 de setembro de 2016 at 16:44

Ai, irmão… <3 Tu escreves com a mesma Bem Querença que guia a escrita aqui!

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