O CANTO DO SOFRÊ VIVO

meu encontro com Dona Ana

Quilombo Bom Jardim da Prata
às margens do Rio São Francisco,
08 de setembro de 2015

Aqui o vento venta mais dentro de casa. A sombra decidida, a vontade fresca no nosso quente, assenta no sofá rendado ou na cozinha de barro vivo a bela figuração do simples. O bafo quente da noite é igualzinho a um copo de café às três da tarde – aquele prazer de criar suor. E o escalda-quente lá de fora na vila trejeita o chão vermelho das andanças do Sô Roberto. O tempo freia tudo nas dobras desta terra. Quando cruzamos o calor do fora cheio de gente e abrigamos na sombra seca dentro de nós, fica um tal meado solitário e um outro solidário. O que a gente espera mesmo dessa seca? O que se faz com tantas derradeirias? Só é possível o silêncio da paisagem que traça um cunho de resistência.

Eu ficaria muito intrigado se houvesse uma resposta para tudo que existe aqui. Aqui neste sertão as soluções soluçam, trupicam, queimam no chão de areia fina cor de canela. É o que eu sinto nascer das vozes desses que moram aqui: a charada está entre um grão de poeira e outro. Não é que desejamos descobrir e desocultar aquilo que ressoa lá no profundo, revelá-lo, desbravá-lo por pura curiosidade, apenas por pura curiosidade. Não se trata disso. Trata-se de conviver com o mistério que faz causa em cada retalho de vida, que trama seus desenhos pelos desenhos que já existem aqui. Geometria certeira, sagrada. Aquela pura geo-grafia do que é sem sendo ser de Guimarães

Em uma das casinhas do Quilombo Bom Jardim da Prata, nas bordas do Rio São Francisco (no sertão profundo de Minas Gerais) a rezadeira desprende do pregador de roupas um ramo de palhas secas de buriti. Me convida para um café-mei-de-tarde e uma breve prosa de conhecimento. O abraço por aqui é sempre a porta de entrada, tanto para o interior da casa, quanto para as querências acampadas nas paredes lotadas dos caraminguás. Portas sempre abertas. Admirável tom familiar com que nos tratamos.

A minha sorte foi ter conhecido, num pugilo de hora antes deste encontro, a história do passarinho “sofrê”. Dona Conceição, a filtradora de sonhos do Quilombo e pareia do Sô Zé dos Passos, nos acolheu em sua casa por duas noites de lua nova e prosas nascentes. Numa dessas, a mestra nos apresentou o causo do passarinho deste cerrado de cor de laranja viva. Segundo ela, o sofrê morre em trinta minutos na mão de quem o pega.

Fiquei num banzo de pensar porque diabos a prisão do homem, por si, mata o sofrê. Por ironia arranjada ou por graça consentida, o sofrê nunca morre às soltas. Seu voo é alto, seu canto é fino, sua melodia é inesquecível. O sofrê precisa existir por si. O sofrê precisa existir. Certo é que a cor viva e o voo deste nome sempre pousa nesses galhos secos que nos cruzam.

Medo do sofrê aqui ninguém tem. Sempre há um quintal apinhado deles. No beiral da janela corroída daquela sala com cheiro de café à lenha, há vários deles. Mestra Ana já o conhece há muito. E às vezes é no seu sorriso que o canto deste pássaro se iguala nela. Ouvir o canto do sofrê no timbre desse mundo quente é aceitar a condição de potência e de coragem desses nós. O sofrê é um traço de vida nesse ser tão diverso. A Mestra me dizia e o sofrê cantava.

No seus traços, um mapa de vida¹. Mapa que encontramos também na casca seca dos troncos de copaíba, barbatimão e baru, e na terra seca dos rios e veredas em ruínas por aqui… uma grande cartografia da intensidade sertaneja. Muita água e muita seca desfiguram hoje o nosso rosto incerto no espelho do mundo².

O canto dos pássaros alaranjados relembra em nós os momentos de eternas derradeirias. O sofrê piado, o sofrer cantado e a sofrência das melodias sertanejas. De fato…. esta natureza do cerrado nos convida para outras lógicas. A prisão do homem continuará a matar o sofrê enquanto a nossa mesma melodia da vida não o incluí-lo.

Isso tudo voa por aí. No fundo no fundo, o sofrê é colorido e vivo, e ruma por essa vida em busca de água.

Muito obrigado, Dona Ana, por nos ensinar a escutar o canto desse doce voo incerto.

Dona Conceição e Dona Ana, mestras deste Brasil profundo, a sua bênção!

1. Agradecimentos à querida Rosane Preciosa pelas prosas inspiradoras.
2. PELBART, Peter Pál. A vertigem por um fio: políticas da subjetividade contemporânea. Iluminuras, 2000.

Share your thoughts