A SEDE DO SOL

SOLIDÃO. SOLITUDE. SOLIDEZ

1º experimento

A água é o movimento, o pingo uma frase curta da solidão e a chuva, a dança.
Nesse exercício livre, criado juntamente com o artista bailarino e performer Pedro Penuela (SP), embarcamos no propósito de fabular o espaço e extrair as sensações: o homem cru e a sua solidão

“…não é que não nos deixam sós, é que não nos deixam suficientemente sós”

Ensaiar a solidão parece uma piada forçada pra qualquer um rir. Mas pra mim nem tanto, tem algo aqui incapaz de reconhecer a simplicidade de estar só. Por isso decidir expôr, decidi misturar, compartilhar.

Tem algo de sólido na solidão, um real mais que real, uma condição sem condição, a solidez por ela mesma. É um vazio tátil. Talvez hoje eu consiga sintonizar mais com o que li de Deleuze no passado, quando dizia que toda a educação deveria ser uma educação para a solidão e que o problema hoje: “…não é que não nos deixam sós, é que não nos deixam suficientemente sós“. Nessa vertigem entre as forças de um mundo excessivamente cheio com um mundo excessivamente vazio, encontro uma dança dançada por muitos.

Uma multidão sem cara, sensível aos vazios, avança fortemente no horizonte e molda hoje nossa atitude perante a muitas coisas da vida. Conseguimos ler com muita facilidade essa aflição nos poros do corpo, essa agonia de reconciliação de vazios, de encaixe dos vácuos nas brechas do cotidiano. Essa multidão é também a marca de uma solidariedade nova, de novos testemunhos certos de que não é preciso acreditar que a solidão existe para existir, não há muito o que fazer senão estar ali, como desenho que também desenha, como suave afirmação da potência, um único ponto vibrátil ao lado de outros.

Será mesmo possível transformar matérias brutas e obscuras da solidão em uma prática solar e libertária da solitude? Pois o sol tem sede e brilha de muito longe.

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