Search

Vale do Matutu, 19 de novembro de 2018
Serra da Mantiqueira
Aiuruoca-MG

A SEDE DO SOL

SOLIDÃO. SOLIDEZ. SOLITUDE.

experimento 1

A água é o movimento, o pingo uma frase curta da solidão e a chuva, a dança.
Nesse exercício livre, criado juntamente com o artista bailarino e performer Pedro Penuela (SP), embarcamos no propósito de fabular o espaço e extrair as sensações:
o homem cru e a sua solidão

“…não é que não nos deixam sós, é que não nos deixam suficientemente sós”

Ensaiar a solidão parece uma piada forçada pra qualquer um rir. Mas pra mim nem tanto, tem algo aqui incapaz de afirmar essa condição e que não reconhece a simplicidade de estar só. Por isso decidir expôr, decidi misturar, compartilhar. Talvez existir em negativa seja só uma face da mesma moeda da vida. Não interessa muito se se nega ou não a solidão porque ela é um fato, inclusive localizável no meu corpo. Acontece que nesse imperativo, na condição sem condição da solidão, encontramos a solidez – quando algo cai no corpo, quando o peso pesa e a gravidade assume. Deixamos de fantasia e assumimos a matéria que compõe nossas atitudes solitárias e, assim, vivemos numa existência mais palpável, menos abstrata e menos incapturável (mesmo que para isso o peito doa de tanto vazio concreto).

Talvez hoje eu consiga sintonizar mais com o que li de Deleuze no passado, quando dizia que toda a educação deveria ser uma educação para a solidão e que o problema hoje:

Nessa vertigem entre as forças de um mundo excessivamente cheio com um mundo excessivamente vazio, encontro uma dança dançada por muitos. Uma multidão sem cara, sensível aos vazios, avança fortemente no horizonte e molda hoje nossa atitude perante a muitas coisas da vida. Conseguimos ler com muita facilidade essa aflição nos poros do corpo, essa agonia de reconciliação de vazios, de encaixe dos vácuos nas brechas do cotidiano. Essa multidão é também a marca de uma solidariedade nova, de novos testemunhos certos de que não é preciso acreditar que a solidão existe para existir, não há muito o que fazer senão estar ali, como desenho que também desenha, como suave afirmação da potência, um único ponto vibrátil ao lado de outros.

Será mesmo possível transformar matérias brutas e obscuras da solidão em uma prática solar e libertária da solitude?

Pois o sol tem sede e brilha de muito longe.

[Em breve, publicarei aqui um diálogo atualizado com Pedro, afim de compartilhar também as reflexões e impressões deste artista].

*Este foi um experimento inicial, o primeiro de uma pesquisa maior com o artista Pedro Penuela, sobre as fricções possíveis entre cinema e dança com foco nas nuances da gravidade e da solidão. Este ensaio também inaugura a série A SEDE DO SOL, que é composta por diversos trabalhos com outros parceirxs, que serão publicados na sequência, em breve, aqui no meu site. Agradeço imensamente ao Pedro por essa jornada de inspiração e pesquisa. 

00
00
00
00
00
Distribua!

0.Comments

    Leave a Comment