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ASSIM, COM FIO

UMA JORNADA PELAS XAMÃS BRASILEIRAS DO BRASIL PROFUNDO

ASSIM, COM FIO

o filme

LONGA. DOCUMENTÁRIO. COR. 2019
A história de 15 mulheres, fiadeiras curandeiras deste profundo,
que encontram no tear o resumo da trama inteira da existência. Fruto de dois anos de pré-pesquisa respaldada pela parceria com as Universidades de Goiás e Unicamp, percorremos inúmeras vezes todo o ofício das fiadeiras, tingideiras e tecedeiras da região noroeste de Minas Gerais. Surpresos com o teor de empoderamento e afirmação identitária, encontramos nessas mulheres as profundezas das questões atuais de igualdade e diversidade de gênero na busca pela potência de ser mulher no mundo de hoje. Direção: Dinalva Ribeiro e Diego Zanotti. Fotografia: Diego Zanotti
Em fase de finalização

Eu havia chegado em Brasília após 12 horas de viagem entre chão e nuvem. Ainda sentia o quente do cerrado como um absurdo incomum, perto do abuso do ar condicionado dos aeroportos, dos aviões e dos carros e, pior ainda, das trocas de ar enlatadas no convívio forçado da rotina. O frio do metal, o calor do asfalto, o quente cru do clima – tudo é muito irônico e estranho ao descer de um avião. O tempo parece não acompanhar a trajetória, o sentido fica pra trás.

Por graça, ao entrar no carro, ainda no aeroporto, Dina, a outra diretora do filme, me conta de um índio que, caminhando na beira da estrada, aceitou a carona oferecida por um motorista ansioso num carro absurdamente veloz e que logo pediu para parar: “preciso sair, meu espírito ficou pra trás”.

Quando desembarquei no sertão, após horas de viagem, de Brasília até o noroeste de Minas, havia um fumacê de poeira e energia me aguardando, que revelavam, aos poucos, algumas pessoas. Talvez ali alguma parte de mim já sentia o olhar daquelas mulheres que conheceríamos. Ainda naquela sensação de querer corpar o espírito que não acompanha as travessias que hoje pagamos, fomos em direção ao sertão profundo encontrar-nos com essas mulheres.  

Eu tenho buscado alguns trotes que alteram a minha realidade… trotes-pessoas. Processos que são abertos quando se está de frente pra uma outra pessoa, um outro múltiplo, totalmente diferente e paradoxalmente igual a tudo. Que dá tudo e absolutamente nada. Gente que é a transformação no laço, em potencial, que circula como vapor na sua pele e que, de repente, entra. É por isso que apostei no encontro com essas mulheres. Algo de longe, antes mesmo de assumir este projeto, me chamava para estar atento ao que iriam dizer: elas também iriam me transformar. 

Durante a produção, naquelas gravações quentes e intensas com tantas mulheres de força e potência, via-me com a câmera seguindo o foco de situações de liberdade que me davam voltas igual abraço de cobra. Todos os dias sinto o bote destas experiências com elas. É como ganhar força extra, voltar à vida sustentado pela resistência e pela afirmação da existência. É como seguir a mesma estrada velha de sempre com táticas novas de guerra. Revestir-me como elas, de um aroma de terra no cabelo e revolver o solo que escolhi pisar – e ali tentar assumir meu banto de garimpo da vida. Mesmo que miudinho, mesmo usando sangra d’água pra estancar tanta ânsia, vou tentando olhar tudo de frente, sem pressa de correr, sabendo que a liberdade não se propaga no vácuo e nem na fraqueza. Sei disso porque elas me contam até hoje. 

Ao final do projeto, terminadas todas as gravações, tomei o carro em direção às capitais, sentado na janela perplexo com tamanha intensidade e honraria por ter conhecido tantas matriarcas. A sinceridade e espontaneidade de todas elas me arrebatavam no resumo do meu estado atual. Mas eu sabia que, a partir daqueles dias com elas,  onde quer que eu observasse a mim mesmo, viria mais de perto a minha minha própria vulnerabilidade tomar a forma de um homem bonito, sensato, previsível e que é capaz de arranjar pra si mesmo todo o bando de indecisões e ilusões disponíveis no tampo daquela janela do carro. E acabar por escutar o sangue que as minhas veias murmuram em mim.

Estava confuso e humanamente transformado. Há muito o que fazer, e nada.  Nestes dias todos, olhando-me por dentro durante os encontros com essas mulheres incríveis deste sertão, parei de frente ao maior dos desafios que venho encarando aos poucos: dar suporte à vida. Desses desafios que as crianças mandam muito bem e que fica muito claro ao estar com Dona Inhana, Dona Conceição, Dona Eva, Cirila e Marias. Porque resistir ao medo se, por vezes, é ele que me tira dele mesmo e me apresenta tudo? Sigo neste mundo em busca de muitas coisas, uma delas são pessoas como estas.

O sangue continua brincando nas minhas veias, o tempo segue por ele mesmo e o chinelo velho continua arrastado no chão.
Em silêncio, escuto esse mutirão de feiticeiras da bemquerência.

E assim, confio.

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