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GERAIS DA PEDRA

o filme

GERAIS DA PEDRA é um filme de Diego Zanotti, Gabão Oliveira e Paulo Junior.
O rastro da história cravada ou submersa dum Grande Sertão roseano inventado a cada dia
– porque a rotina, ela própria, não suporta.
Então pé na estrada!

GERAIS DA PEDRA é um filme sobre encantamento. Tem como premissa básica vivenciar a reverberação do livro Grande Sertão: Veredas nos lugares onde a história narrada por João Guimarães Rosa se confunde com as próprias histórias locais, entre citações reais ou criações ficcionais e as suas relações com o povo geraizeiro do norte de Minas Gerais. Por outro lado, propõe o caminho inverso: registrar a relação dos relatos da sabedoria popular e das tramas complexas do cotidiano do sertão com a própria narrativa roseana, ora transformada em mito, ora em referencial presente.

O documentário, com 40 horas de material bruto já captado em quatro semanas entre janeiro e fevereiro de 2017, não se trata, porém, de uma adaptação, investigação ou encenação diante do livro. A narrativa de Rosa trata-se tão somente do norte artístico que nos levou a exercitar o cinema direto e pautar as conversas com os personagens que foram surgindo frente à câmera, sem qualquer recorte intelectual ou técnico previamente estabelecido. O conceito, no caso, é o de ressignificação. Grande Sertão: Veredas, aqui tratado como mito local de jagunçagem, relacionamento e identidade sertaneja, atravessando a contemporaneidade do sertão mineiro 60 anos depois da publicação da história clássica, inaugurando um novo olhar para os caminhos eternizados na literatura e aqui percorridos.

Diante da complexidade da trama, em GERAIS DA PEDRA o recorte se dá principalmente no rastro dos caminhos traçados pela personagem Diadorim, em que o prefixo dia (dialética, diabólica) e o sufixo im (imprecisão de gênero) inspiram toda a temática abordada. É um documentário, portanto, que percorre a história de vida dos norte-mineiros e seus encontros e coincidências, geográficos ou metafísicos, com a narrativa literária de Rosa presente no imaginário local. A literatura encontrando sua realidade inspiradora ao tempo que a vida real se encanta pela reverberação literária.

Antes de detalhar a abordagem do filme, uma breve passagem pela obra. Grande Sertão: Veredas foi lançado em 1956 e é para muitos, inclusive internacionalmente, a obra máxima da literatura brasileira. De forma simplista, e para um olhar mais 3 direto na abordagem que interessou ao recorte de GERAIS DA PEDRA, se trata de um monólogo narrado pelo agora ex-jagunço Riobaldo diante de uma retrospectiva de sua vida. Diadorim, mulher vestida de homem (e de nome Reinaldo), para guerrear num ambiente exclusivamente masculino, tem uma relação dúbia com Riobaldo, contada por ele, entre a parceria na jagunçagem e a paixão de um casal. Riobaldo reconhece Diadorim enquanto mulher apenas no momento da morte dela. A narrativa e o espaço do documentário GERAIS DA PEDRA tem como base o rastro da história de Diadorim.

Mas, por que o Grande Sertão: Veredas? João Guimarães Rosa revelou, certa vez, que teve sua primeira inspiração literária durante uma aula de geografia. Aficcionado por mapas (e tendo acesso aos melhores deles enquanto funcionário do Itamaraty), acompanhou uma boiada em 1952 para conhecer o terreno onde queria propor a narrativa, colhendo histórias e se debruçando sobre as particularidades do cerrado. Assim, faz uma literatura muito apoiada nos espaços por onde andou ou viajou ao ouvir as idas e vindas de vaqueiros, jagunços, sertanejos.

Diante do que é possível mapear no Grande Sertão: Veredas – já definido como um romance labiríntico -, o documentário GERAIS DA PEDRA definiu uma região de abordagem, baseada por duas razões: primeiro, o caminho percorrido por Diadorim, do início da vida à morte; segundo, o fato dessas localidades não terem articulação social, cultural, de memória ou de turismo relevantes em torno da obra roseana – não era intenção do filme encontrar caminhos institucionais ou acadêmicos sobre a literatura. Assim, a filmagem foi dividida em quatro regiões que configuram três atos (Paredão de Minas/morte, Barra do Guaicuí/amor e Itacambira/nascimento) mais um prólogo/epílogo (Serra do Espinhaço) de acordo com essas localidades e as relações com Diadorim, que norteiam a abordagem e os assuntos tratados com a comunidade local. Nesses lugares e cenários, GERAIS DA PEDRA conta a história das pessoas em conversas mediadas pela história do livro à exemplo do ocorrido no Paredão de Minas, local da batalha final entre Diadorim e Hermógenes, local este em que se aborda o histórico de batalhas entre grupos rivais na região, a atuação de jagunços e reflexões sobre a própria morte, além, claro, das ideias da comunidade local sobre o enredo criado por Rosa (Melhor detalhado no campo Estrutura deste Edital).

O material bruto captado é baseado numa abordagem clássica do documentário road e de descoberta, focado nos depoimentos: câmera única, planos fechados nos personagens, proximidade entre equipe, câmera e entrevistado, conversa direta e informal nas casas, ruas e locais públicos disponíveis, uso da luz 4 natural ou ambiente, interferência externa de ruídos ou entradas no quadro. Além disso, captação de inserts variados: da estrada e dos deslocamentos, das ambientações dessas cidades e vilas, dos lugares emblemáticos para compor a obra – fazendas, encontro dos rios e, principalmente, dos parques e da Serra do Espinhaço, importante componente da curva do filme – e de reações espontâneas do documentário de imersão: manifestações religiosas, crianças brincando, pescadores trabalhando, personagens caminhando a lugares importantes de suas histórias.

Foram também captadas duas situações pensadas para compor as transições entre os atos e criar uma narrativa paralela aos depoimentos: uma delas são retratos em movimento de pessoas segurando uma pedra enquanto metáfora da passagem de tempo na vida de Diadorim – criança, jovem, adulta, entre o masculino e o feminino -; a outra é a encenação por uma bailarina convidada que constrói uma performance saindo da pia onde Diadorim foi batizada na igreja de Itacambira (Ato 3: nascimento) e correndo pela cidade, interagindo com as pedras, os caminhos, a Serra do Espinhaço, consolidando essa narrativa paralela. Em meio ao documentário de depoimentos e inserts de ambientação, corre essa história do prólogo, por entre os três atos e até o epílogo.

Dentro desse cenário do sertão mineiro, antes mesmo de entrar no mérito da relação com a literatura, GERAIS DA PEDRA abrange um público-alvo com interesses variados e relacionados à região, ainda mais os Gerais e o norte de Minas, pouco lembrado quando se pensa em questões comuns aos mineiros, nacionalmente mais identificados pela capital Belo Horizonte ou as cidades históricas do sul do estado. A própria questão ambiental e a manutenção dos direitos das comunidades tradicionais é um assunto urgente e que se relaciona com uma série de documentários brasileiros com grande repercussão nesse mesmo eixo, como ”Belo Monte: Depois da Inundação” e “Belo Monte, Anúncio de uma Guerra”, relacionados à construção da usina hidrelétrica homônima, e “Martírio”, que retrata a luta pela sobrevivência dos guarani-kaiowá.

Encontra também o público formado pelos excelentes documentários de descoberta e de identidade nacional ou regional do cinema brasileiro contemporâneo, em fitas como “Terra Deu, Terra Come” ou “O Fim e o Princípio”, esse último do saudoso Eduardo Coutinho, referência óbvia na construção da linguagem documental.

Por fim, ter como inspiração uma obra do tamanho de Grande Sertão: Veredas nos abre também a possibilidade de contato com 5 um público curioso, estudante ou pesquisador de literatura, percorrendo esses ambientes dispostos a pensar a linguagem e a invenção roseana que se confundem com a própria identidade da região do norte de Minas.

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