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O Canto das Kayapós

O CANTO DAS KAYAPÓS

IMERSÃO PELA ALDEIA MULTIÉTNICA - GO

Vila São Jorge,  12 de agosto de 2016
X Aldeia Multiétnica,

XVI Encontro de Culturas da Chapada dos Veadeiros 

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Por vezes eu pensei que era um encontro impossível. Não por falta de vontade ou de presença, mas porque havia ali uma força pouco natural, meio forçada, que vinha de mim e das circunstâncias de um provável choque cultural. Perguntei-me algumas vezes se eu queria mesmo estar com elas. Perguntei também se meu deslumbre queria mesmo ficar intacto, sem o toque de realidade, porque era quase melhor ficar nessa distância, escutando-as ao longe, à noite ou no trabalho dos cânticos sagrados da madrugada.

Um jogo de forças me dobrou por cem mil vezes, longe da sutil esperteza do meu racional. Uma contradição convidativa, por sinal, ao olhar para mim mesmo em volta de outros e perceber-me numa vontade emergente: tratar o real como um desejo imaginado. Porque diabos qualquer um de nós haveria de manter em segurança seu romance interno com as expressões que nos apareciam daquelas etnias? Ao mesmo tempo, como realizar minha presença sem contemplar uma distância tão grande entre mim e elas , que nos aproximasse na direção da beleza obscura da diferença, de tom sincero e sutil?

No claro e escuro da nossa natureza, brotamos nosso fruto mais nobre e radical: a vulnerabilidade diária do mundo. Se o contato com aquelas mulheres Kayapós trouxe tantas emoções e contradições a mim, é sinal de que os alarmes da vida continuam ativos. E que o aprendizado reside na sensação de algum sinal autêntico, no arrepio da minha pele, de alguma potência frente ao meu bruto tom de realidade.

Afinal, de que maneira era possível permanecer ali naquela margem de rio sem contestar meu senso de verdade macro-cósmica? Que outra forma-mundo se escondia nos cânticos daquelas mulheres, nas suas pinturas, nas suas crianças, que renovava em mim a realidade múltipla das pessoas, dos fatos e das coisas? De dentro da minha barraca, recolhido em mim, chamava isso de desnaturalização da cultura. Do lado de fora, era apenas uma vivência, a de ouvir as mil vozes que me fazem e as outras mil que nos fazem juntos.

Qualquer um dos muitos deuses por aí oniscientes sabe a força da melodia das Kayapós. Meus demônios cruzam os braços ao ouvi-las porque é certo que seus agudos circundam a noite e o dia da Terra. Como se não fosse possível medir a imensidão sem fazer surgir um som que embala o sagrado.

No fim, aceitamos juntos uma condição única de existir.

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