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UM CONTO QUE JÁ SE FOI

largar tudo e partir...

…a caminho de novas casas.
interior do Brasil
maio/2016

 

Do alto daquela cadeira cinza, encardida pelo seu imobilismo a passos largos, o garoto perguntou pela fresta daquela sala desmontada se haveria de fazer alguma coisa quando o sono chegasse. Por ali não havia nada que o respondesse ou alguém que o ajudasse. A multidão ficaria dentro dele mesmo. Era mais que certo: ele odiava despedidas. E era ainda mais simples: um gesto que lhe causava medo causava-lhe também um brio, um capricho. Só era preciso partir. E essa inocente poeira de confusão vacilava nele mesmo e naquela casa um almejo pelos cantos vazios. Como se todas as coisas ainda não tivessem sido conquistadas, como se não existisse passado tão intenso como o futuro estreito pela partida na próxima madrugada. Mas ainda era gostoso ficar sentado ali no lugar que ele mesmo se colocou, ainda era melhor do que ir. E era até mesmo muito engraçado fazer brotar uma desconcertante clareza num sopro farto do seu pulmão, cansado de lutar pra crescer (ali a ilusão sempre aparecia como falta de fôlego). Em algum lugar daquele monte estreito de móveis, ele encontraria a solução para tantas de suas lonjuras. O medo era um distinto voraz naquele peito bem aberto e fundo, era um assombroso sinal de vida cheio de tremeliques, cagaço e covardia. Nada mais do que aquele instante parecia ser maior. Nada mais era necessário. Ficar na confusão parecia ser mais agradável – “melhor não sair no frio”. Ele precisava de roupas. De manha. De manta. De panela e sabão de anis.

Ainda sabendo disso, ele quis sair. Partiu naquela madrugada. Juntou na boca três grãos de poeira daquela casa e engoliu. Se evadiu para uma digestão qualquer, num lugar qualquer que não fosse mais ali. Sentou com a boca amarga e o coração irrequieto na penúltima fileira do ônibus. Conferiu sua passagem, seu dinheiro e sua sandália. Era simples. Era de fato muito simples. Que mal, afinal, povoaria em todos os seus gestos pequenos? Pegou sua identidade nas mãos, um plástico descartável antigo e desbotado, invadiu a janela, olhou para fora… e se foi.

No meio da viagem, uma cena de seu filme predileto parecia reprisar-se em sua própria realidade:

[diálogo do garoto com o motorista de um carro-barco]

-Eu sinto que o meu transporte deve refletir a minha personalidade. Voilá! E esta é a minha pequena janela para o mundo. A cada minuto, um novo espetáculo. Posso não compreendê-lo ou necessariamente não concordar com ele, mas eu o aceito e acompanho a maré. Mantenha o equilíbrio, é o que eu digo. Vá no fluxo, siga a corrente. O mar jamais rejeita um rio. A ideia é manter-se em um estado de partida, mesmo ao chegar. Economiza-se em apresentações e em despedidas. A viagem não requer explicações, apenas passageiros. Então, onde você quer descer?

– Hmm… eu? Sou o primeiro? Não sei. Qualquer lugar está bom.

[o motorista para o carro-barco]

– Que lugar é esse?

– Não sei, mas é algum lugar. E determinará o desenrolar do resto de sua vida. Hora de desembarcar.

 

* Trecho retirado de um dos filmes mais importantes da minha vida – Waking Life, de Richard Linklater (2001).

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0.Comments

  1. dizpsi
    maio 9, 2016 / Reply

    Ai… Conheço bem essa falta de fôlego. Não deixa ele me pegar mais. <3
    Grata por tanta beleza em palavras, meu irmão!!! Voemos!

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