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Vila Sagarana
07 de janeiro de 2016

senhora dos anjos e arcanjos

o encontro com Dona Gumercina

Inaugurando o primeiro dia de gravação de um documentário, fui surpreendido pelo afeto de uma senhora. Caminhando cerca de 10 km ao longe da Vila Sagarana, pegamos um trecho lameado pela chuva que nos levava até o Vale da Cachoeira do Boi Preto. Com os equipamentos nas mãos, fé no céu e no guarda-chuva, fui guiado por uma amiga nativa até o pouso de Dona Gumercina.

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Ao pé do fogão à lenha, ela me contou uns bons dobrados de prosa. Cada gole do café mais doce do que quente traduzia o saldo de paz que era a sensação de estar ali com aquela mestra. Percebi que nunca havia parado os olhos por tanto tempo num “biscoito peta” caseiro, típico da região, como havia feito ali durante os goles. Por certo que era um estado de instante sem julgamento e que deixavam as coisas ali perto mais saborosas, apropriadas e interessantes. A condição do encontro ali naquela cozinha separada da casa era chamá-la internamente de “vó” , por respeito e reverência à uma história bruta e potente, que beira qualquer ranço de ficção.

Dona Gumercina passa boa parte do tempo em oração. Une-se às forças místicas dos Anjos e Arcanjos, pela guarnição azul de São Miguel e fortalece nesse mundo espiritual a base de sua valentia para lidar com aquilo que ela chama de sofrimento da vida e da memória. Os arrepios que eu sentia ao ouvir suas histórias recuperavam em mim um certo senso de gratidão pelo mistério que era eu ao estar de frente pra ela e a incógnita que era ela de frente pra mim. O que seria, então, aquelas histórias com cheiro de lenha e poeira, senão um lastro de passado que me engoliu neste presente perpétuo, carregado pela vontade de ser aprendiz desta e de muitos outros mestres e mestras que encontro nesta terra de fogo e poeira vermelha? Só basta regurgitar no centro do peito e da garganta aquilo que fora dito por ela, que ecoa pelos quatro cantos desta experiência: a gente passa a vida aprendendo e morre para não saber.

Conversamos sobre o destino ligeiro da vida, bem no fundo das palavras, e investigamos se estávamos mesmo dispostos a viver uma vida sem murmurar restolhos de coisa alguma. Perguntei sobre alguns causos misteriosos da região e ela me ofertou uma inacabável tarde às voltas de seus porquês e de seus relatos que misturam a realidade, o imaginário e o místico numa mesma corda sonora de prosa. Pois por fim, frente a esta Senhora de tão bruta história, posso ao menos dizer que o maior dos mistérios para mim deixou de ser algumas prosas e passou a ser a grande dúvida instaurada por ela, a de como pode ser a vida tão abundante, mesmo para quem tem no registro dos pés o peso da lata d´água, do sol escaldante e da terra seca que carcuminha o chão e a sola grossa do calcanhar?

Aos fundos de sua casa, um ramo ancestral da vida – figuração de todo o nosso encontro naquela tarde na imagem de uma árvore. Mágica feita para todos os poros do corpo, expandidos pela presença desta vó-senhora.

 

Dona Gumercina, mestra deste Brasil profundo, a sua bênção!

 

Confira abaixo algumas fotos do processo documentário deste encontro, com a senhora dos anjos e arcanjos:

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4.Comments

  1. dizpsi
    janeiro 10, 2016 / Reply

    Lindo registro Zanotti! A força de São Miguel Archanjo é mesmo coisa muito forte e de se arrepiar! Essa senhora é raridade e preciosidade!

  2. dizpsi
    Lydia Marques dos Santos
    janeiro 10, 2016 / Reply

    Querido Diego…..que linda, brilhante, iluminada, majestosa Senhora dos Anjos e Arcanjos! Que belo texto! Fotos espetaculares! Beijos saudosos…

  3. dizpsi
    Felipe Saleme
    janeiro 13, 2016 / Reply

    !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

  4. dizpsi
    dezembro 9, 2018 / Reply

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