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Vila Sagarana
04 de julho de 2015

DAqueles Rios Inacabados

o encontro com Sô Roberto

sol parecia gritar naquele silêncio da vila. Com os pés no chão, eu vi pela primeira vez um lastro de poeira se alevantar e girar até próximo a uma pedra branca. Seja por desassossego ou por calor endireitado, minhas mãos suavam rios. A ansiedade fria no peito quente combinava no que pensei: eu estava no real que antes só imaginava.

Nem cheio e nem vazio. O espaço tomado pela poeira vermelha cor de canela parecia ligar todos nós àquele lugar: há sempre um grumo de poeira nessas vivências. Muita gente feliz. Os primeiros abraços lastreavam a vila. A música constante de tantas vozes e gargalhadas pareciam harmonias de sanfona. Logo à noite, os pés ensaiariam a jornada de 170 km no bailado da noite de lua cheia. No meio de tantos sons desta tarde, ou em meio à um silêncio vazio sem ser oco, um grito:

Ôôôôôôôôô Jisus tá chegaaaando! Nossa Senhora.
Prá arrumá as desgraça.
Pra liberar o demo.

FOTO7769-6

Era bravo o seu brandão. Perguntei pra mim mesmo que estorvo seria aquele que estava na garganta grossa daquele homem quase-imaginado. Deus é mesmo coisa séria e o demônio tava preso no mundo. Tive medo de me aproximar e desarranjar a oportunidade de ficar com mais daqueles gritos. Mas num pulso maior que o peito, sai de trás da árvore e fui em direção a ele. De perto, um sorriso aberto a mostrar língua grossa. Interessante era o fato de que só o compreendia quando, antes, gritava. Agora achegado, eu escutava uma voz  grave que juntava doçura e desatino em frases tortas e reclamadas. Afinal de contas, jogar qualquer palavra no vento só aumentaria a saturação da poesia. Inclusive porque havia percebido que o seu cachimbo aceso criava contornos da sua aura aberta e casacuda, e o seu corpo todo entregava sentidos que estavam muito além da prosa da boca. A prosa boa mesmo era aquela que vinha da costura de fumaça e acentos no ar. E assim conversávamos. Fiz algumas perguntas e obtive outras respostas. “O senhor mora aqui há quanto tempo?” Ora… o que tanto importa? O capricho daquele encontro colocava no ar o cheiro da brasa, o suor da testa, a pele seca, a roupa torta. No peito, uma trança de chaveiros e cordões circulares unidos um a um pareciam mais vísceras e veias de um corpo que explana suas infatigáveis ligações.

Na cerca que nos separava, ele bateu o restolho de fumo preto na madeira. Uôu!!! Sacudiram-se as cobras! Mortas, estavam todas elas penduradas num varal de arame farpado meio bruto meio místico, enroladas em cadeados. Aquilo, então, conversava – como tudo que habitava o terreiro. Se as cobras estão no laço, que esteja então tudo que enrola, enlaça, engole. Era de admirar, naquela terra, o bote certeiro da honestidade e a condição única de estar entre cobras mortas penduradas num arame farpado, entre chaveiros no peito, cadeados fechados e, por graça, nenhuma chave.

Curioso ainda eram as portas abertas de sua casa recebendo o crescer do mato vivo e verde, de dentro para fora. Algumas moitas alastravam cômodos. Se de tudo o mato existe, não é para sair do lastro de sua casa. As trincheiras estão bem provadas: as cobras estão na porta, os cadeados prendidos no vento e o retumbante dos chaveiros no peito.

Um catimbau de forças pululam este Sertão. Sô Roberto – quem sabe outro desses Rios inacabados – ecoa pelo cerrado com seus gritos de fé. Tivemos um encontro forte, emocionante, infinito. Toda a travessia era possível nesse vai e vem de intensidades que rasgavam as cercas místicas.

De que vale o encontro senão rasgar-se e remendar-se¹ nas trincheiras, nas ferruginosas cercas do eu e abrir a ferida da boa bemquerência?

As poeiras por aqui arrepiam!


¹Referência à frase de Guimarães Rosa: “Viver é um rasgar-se e remendar-se”. 

[Estes textos e imagens são referências ao Projeto Caminho do Sertão. Para saber mais, veja este post]

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